O que empresários precisam saber sobre os riscos psicossociais
Se você é empresário ou gestor, já deve ter ouvido falar da NR-01, a “Norma Mãe” da segurança do trabalho. Mas, com as atualizações recentes, ela ganhou um novo peso dentro das empresas. E antes de tudo, vale esclarecer: o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais já era obrigatório.
O que muda, de fato, é que a partir de maio de 2026 os riscos psicossociais passam a ser obrigatoriamente mapeados, registrados e gerenciados dentro do inventário de riscos. Ou seja, a saúde mental entra oficialmente no radar da segurança do trabalho.
Por que isso importa para o seu CNPJ?
Para entender o impacto dessa mudança, basta olhar a evolução da segurança no Brasil. Nas décadas de 70 e 80, o foco era evitar tragédias físicas — amputações, quedas, explosões. Nos anos 2000, o problema passou a ser o desgaste do corpo, com as LER/DORT dominando os afastamentos.
Hoje, o maior risco está na mente. Os transtornos mentais cresceram 134% e já são a terceira maior causa de afastamentos no país. Pressão, ritmo, cultura e forma de gestão têm adoecido mais do que muitos riscos físicos. A atualização da NR-01 veio justamente para obrigar as empresas a enxergar isso.
Alguns números ajudam a dimensionar o cenário:
- Recorde histórico: mais de 546 mil benefícios concedidos pelo INSS por motivos de saúde mental — o maior número da última década.
- Impacto maior nas mulheres: elas representam cerca de 63% dos afastamentos.
- São Paulo lidera o ranking: quase 150 mil afastamentos apenas no estado.
Com a mudança, fatores como prazos irreais, metas inalcançáveis, comunicação agressiva, falta de autonomia, funções mal definidas, sobrecarga e culturas baseadas no medo passam a ser considerados riscos ocupacionais formais. Eles precisam ser identificados, analisados e prevenidos com o mesmo cuidado que já se dá aos riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes.
E é importante reforçar: gerenciar riscos psicossociais não tira o poder diretivo da empresa. Você continua podendo cobrar, exigir, direcionar e avaliar. A diferença está no “como”. A NR-01 não quer empresas “boazinhas”; ela quer empresas saudáveis, produtivas e juridicamente protegidas. Metas podem ser firmes, desde que não sejam desumanas. Liderança pode ser firme, desde que não seja agressiva.
E por que isso tudo importa para o empresário?
Porque risco psicossocial mal gerido, agora, não gera apenas afastamento, queda de produtividade, rotatividade, ações trabalhistas, rescisão indireta e condenações por dano moral. Hoje, tudo isso também pode resultar em multas por infrações, já que a gestão desses riscos passa a ser uma obrigação formal.
E tudo isso custa caro.
No fim das contas, a nova NR-01 reforça uma verdade simples: segurança do trabalho não é só sobre EPIs, máquinas e procedimentos. É sobre pessoas, gestão e cultura. É sobre como o trabalho é vivido no dia a dia. E, principalmente, sobre como a empresa organiza, comunica, cobra e acolhe.
BEATRIZ FERES
OAB/SP 473.145
São Paulo, 19/06/2026


